Escrito por: Edição: Francicarlos Diniz / Fonte: Ascom/Consea

Conselheiros do Consea comentam resultados do Censo Agropecuário 2017

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, no último dia 26, os resultados prévios do Censo Agropecuário de 2017.

Patrícia Costa
Feira da agricultura familiar

Os indicadores definitivos do Censo serão divulgados em julho do próximo ano. A última edição da pesquisa foi realizada em 2006.

Representantes de agricultores familiares e camponeses e produtores da agroecologia com assento no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), os conselheiros Anderson Amaro, Eduardo Amaral (Cazuza), Marcos Rochinski e Sandra Marli comentaram os resultados preliminares do Censo Agropecuário e sua relação com a segurança alimentar e nutricional.

Participação feminina

Para Sandra Marli, que representa o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) no Consea, a equidade de gênero no campo ainda é um grande desafio para as mulheres, mesmo com o aumento na última década [segundo o Censo Agropecuário 2017, o percentual foi de 12,7%, em 2006, para 18,6%, em 2017. São 4,1 milhões de homens conduzindo propriedades rurais contra 945 mil mulheres].

“É gritante a invisibilidade do papel da mulher camponesa. São as mulheres que sustentam a produção agroecológica e que garantem a segurança alimentar e nutricional dos brasileiros”, afirma ela. “A monocultura reduz o espaço de atuação das mulheres, empurrando-as para dentro de casa“, completa.

O conselheiro Anderson Amaro, representante da Via Campesina no Consea, afirma que é preciso reconhecer o protagonismo feminino na agricultura familiar e camponesa. “No Nordeste, a participação das mulheres na produção rural é ainda mais significativa”, ressalta ele.    

Agrotóxicos

Aumentou em 20,4% o número de produtores rurais que utilizam agrotóxicos na lavoura, diz o Censo Agropecuário de 2017. Em números absolutos, o número de estabelecimentos que usam este tipo de substâncias saltou de 1,39 milhões em 2006 para 1,68 milhões em 2017. Já o número de produtores rurais que disseram não empregar agrotóxicos caiu de 3,62 milhões, em 2006, para 3,2 milhões em 2017.

Para Marcos Rochinski, conselheiro do Consea e representante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf), o aumento do uso de agrotóxicos no campo é uma realidade que já vinha sendo observada há muito tempo e poderá avançar ainda mais caso o Congresso Nacional aprove o Projeto de Lei 6299/2002, que pretende flexibilizar a legislação sobre a liberação e utilização de agrotóxicos no país.

Representante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), o conselheiro Eduardo Amaral afirma que o aumento do uso de agrotóxicos na lavoura reforça ainda mais a urgência da implantação da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA).

Concentração de terra

O Censo Agropecuário 2017 revelou que, nos últimos 11 anos, os grandes produtores rurais, que detinham 45% das terras de estabelecimentos agropecuários em 2006, elevaram sua fatia para 47,5%.

As propriedades com até 10 hectares de terra, diz o IBGE, representam metade dos estabelecimentos no país, mas utilizam uma área de apenas 2,2% do território produtivo. Em 2006, elas ocupavam 2,7% do total.

A conselheira Sandra Marli diz que que a concentração de terra nas mãos dos grandes agricultores acabará com a diversidade de produção de alimentos no campo, comprometendo a segurança alimentar e nutricional de camponeses, indígenas, quilombolas e faxinalenses, entre outros povos. “O agronegócios só quer produzir commodities. Estamos virando um gigantesco silo dos Estados Unidos”, lamenta.  

“A reconcentração fundiária vem na contramão da urgente reforma agrária que o país tanto reclama e vai de encontro à diversificação da produção de alimentos. Na década de 80 a variedade de grãos era enorme, hoje praticamente só estamos produzindo oito tipos de grãos, com destaque para o milho e a soja”, afirma o conselheiro Anderson Amaro.    

Para Marcos Rochinski, o aumento da concentração de terra verificado na pesquisa é um dado bastante preocupante, pois aponta para o recrudescimento das desigualdades no campo.

Envelhecimento

Segundo o Censo Agropecuário 2017, pessoas com mais de 60 anos correspondem a mais de 1,7 milhão dos produtores no campo, ou seja, 34,2%. Já os menores de 30 anos não chegam a 280 mil. Eles equivalem a 5,4% dos produtores rurais.

Para Sandra Marli, esse fenômeno resulta da falta de estímulo para manutenção do jovem no campo. “Em muitas regiões, a questão da sucessão é um empecilho. Não há perspectiva de renda para o jovem agricultor, que acaba indo trabalhar na cidade”.

Marcos Rochinski avalia que o envelhecimento do perfil do produtor rural revela que as políticas públicas não têm sido suficientes para a sucessão no campo e questiona: “Quem é que vai garantir a soberania e a segurança alimentar para as próximas gerações?”. 

Metodologia da pesquisa

O conselheiro Eduardo Amaral destacou a falta de dados mais completos no Censo Agropecuário 2017 que permitam refletir melhor a realidade da produção extrativista dos povos da Amazônia e do bioma do Cerrado.     

Para Marcos Rochinski, o Censo Agropecuário 2017 retirou questões importantes que permitiriam uma melhor avaliação comparativa entre a agricultura familiar e o agronegócio.

Políticas públicas

“Os números do Censo Agropecuário revelam que o estado brasileiro precisa olhar mais a realidade do campo”, pondera a conselheira Sandra Marli. Segundo ela, “é preciso retomar os avanços de políticas públicas que garantam a permanência do trabalhador no campo, como o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], o Pnae [Programa Nacional de Alimentação Escolar] e o PNHR [Programa Nacional de Habitação Rural​].

Para Anderson Amaro, as políticas públicas devem estar voltadas para o fortalecimento da agroecologia. “Estamos na contramão do mundo. Não podemos ficar reféns de uma matriz tecnológica que não prioriza a diversidade na produção de alimentos. A padronização dos alimentos é uma ameaça à segurança alimentar e nutricional da população brasileira”, finalizou o conselheiro.